domingo, 2 de novembro de 2008

Brincos

Naquela noite, ela se sentiu bonita. Olhou-se no espelho e viu uma daquelas mulheres elegantes com simplicidade. O brinco pequeno e discreto deu o ar da graça em mais uma noite que prometia ser divertida, carinhosa e com pitadas fortes. Nada que atrapalhasse a leveza do clima, a casualidade dos olhares e a insegurança de cada dia.

Sentiu-se completamente entregue e sem sua proteção habitual. Sentiu seus cabelos se espalharem e irem para o mesmo lado das suas convicções. E sentiu-se bem. Não, claro, sem se culpar algumas vezes pela perniciosidade daqueles pensamentos.

(...)
Mas o brinco estava ali, para combinar com o brilho dos olhos. Para coroar a combinação mágica daquelas duas cores que se misturavam numa repetição incessante de carinhos.

domingo, 19 de outubro de 2008

Medos


Um dia eu tive medo.

Eu sou mesmo muito medrosa. Tenho medo de estampidos, de palhaços, de filmes de terror e, principalmente, de coisas que eu não posso controlar.

Mas, como eu vinha dizendo, eu tive medo.

Tive um medo grande, quando gostei da sensação que senti quando ele me abraçou. Eu quis senti-lo perto de mim por outras vezes, e esse querer me afetou. Eu quis não sentir, quis não me deixar levar e sim levar as coisas.
Pra onde?

Ninguém sabe.
Eu tive medo de quando comecei a sentir a falta dele. De quando os pequenos carinhos e elogios começaram a funcionar quase como um anestésico para as dores cotidianas e de como eles me fizeram dependente.

Fiquei num estado de desespero quando comecei a desejar que ele me abraçasse com todo o carinho devotado a algo de que você não quer se desfazer nunca. De quando eu desligava o cel e percebia que estava triste por não tê-lo do meu lado...
Comecei a ficar desesperada quando vi que tudo aquilo já era indispensável, pra mim. Que aquelas frases confusas, sem saber se já podia ser quem era ou se ainda mantinha a fama de mau, me faziam lembrar do começo de tudo, quando eu ainda não sabia quanto medo eu poderia ter de mim mesma.

Fiquei com medo.

Só queria ele do meu lado, quando eu achava chatas ou legais demais.
Sentir falta, hoje em dia, dá medo.



"O que mais me incomoda não é não ter recebido mensagem. É ter sentido falta delas."

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ventríloquo


Ela sonhava em ter sua amiga de volta. Uma amizade unilateral, quase maniqueísta. Queria a comodidade de ter alguém sempre do seu lado, mesmo que isso custasse a liberdade de escolha do seu velho apoio.
Mas certas coisas haviam mudado. Não havia mais, por parte da sua companheira, aquela vontade de evitar o clima bélico acima de qualquer coisa. Suas vontades estavam, em doses esparsas e homeopáticas, se tornando suas prioridades. Seria um atentado contra sua integridade moral submeter-se, em todos os momentos, às vontades ditatoriais daquela cuja habilidade principal era fingir-se de ventríloqua.
Claro que, por conta do aparecimento escasso de sua força de vontade, seus desejos ainda não eram cem por cento respeitados. Isso causava uma estranheza absurda à quem a desejava por perto novamente. Causava, também, brigas e discussões para ver quem realmente deveria governar aquele barco chamado pelas duas de “minha vida”. Seria realmente de uma delas? Ou fora carinhosamente alcunhado assim pela importância que adquirira?

Não sabiam.
Mas queriam ter o controle.

Era justo que uma falasse pelas duas?
...
Não, não era. Mas assim como o ventríloquo não admite a vida do boneco, ela não admitia a vida de sua amiga. Dizia, controlava os movimentos, não dividia com ninguém. E, quando se cansava, guardava-a na sua estante, junto com o perfume, o porta-retratos e outras coisas que eram só dela.
Era bom tê-la por perto.

(...)
Uma amiga como essa deve mesmo fazer muita falta.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Confins

Porque eu gosto do seu abraço
E gosto do que me faz sentir.
Gosto de quando sorri de lado
E do jeito como me olha.

Gosto do banco da escola,
Do muro que ouve beijos e confissões.
Gosto de olhar a lua cheia,
De ver que seus olhos brilham muito mais assim;
De imaginar que meu cabelo está brilhando, também, e que formamos um casal simpático.
Gosto, de um jeito que eu não queria, de ouvir que você sente minha falta enquanto me beija depois de um fim de semana longe.
Gosto das coisinhas pequenas, das lembranças e daquilo que você faz mesmo sem saber se eu vou retribuir.
Gosto da sua mão procurando a minha, numa caminhada - e de quando elas se entrelaçam depois de se encostarem.
Gosto de nossas fotos mentais e de como as revelamos sem papel especial.
Gosto de nossos jogos lógicos e lingüísticos. Das retomadas das premissas de cada um e do quanto elas se moldam aos nossos interesses.
Gosto.

Mais do que deveria.


(diretamente dos confins da minha bolsa e do dia 20/05/2008)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O dia em que você foi pro Japão


No dia em que você foi pro Japão, as horas não passaram. Acordei sem saber se você estava indo dormir ou se já era muito tarde pra isso. Só sabia que você tinha ido pro Japão.
Resolvi esperar.
Você não levou malas, nem roupas, nem retratos antigos. Foi. Mudou-se para uma terra longínqua sem aviso prévio, sem dar qualquer sinal de que voltaria.
Quando abri meu armário, senti falta de alguns carinhos antigos que eu guardara para me lembrar sempre – a velha mania de aprisionar lembranças. Eu sempre os procurava quando você não estava por perto. Talvez você tenha levado consigo; talvez tenham sumido com o tempo. O fato é que não estavam ali.
Procurei por um aviso de sua volta. Não havia. Lembro de ter sentido um forte aperto ao imaginar que você não voltaria, mas fui confortada por nossos amigos e suas palavras, que disseram que você era assim mesmo. Não há necessidade de se apertar.
Tudo bem. Lá fui eu, andar pelos nossos lugares e imaginar o que você deveria fazer naquele exato momento, agora que havia trocado o dia pela noite. Olhava e esperava pra ver se você não aparecia por detrás daquelas pilastras dizendo que tudo não passava de uma surpresa – o que se encaixava bem no seu perfil –, mas a cada minuto passado ansiando por isso, sua chegada se tornava cada vez mais utópica.
Fui cansando de esperar sua volta triunfal, dizendo que tentara incessantemente falar comigo mas a rede não havia deixado. Essa espera descabida por algo que não vai acontecer desilude.
Resolvi apenas esperar você voltar. Horas, dias, meses: não fazia idéia de quanto tempo isso duraria. Esperei. E você voltou, sem a voz de ânimo pela viagem feita nem pela volta. Sem aquele sorriso, sem o abraço, sem sede... sem você.

Deve ter se esquecido no caminho. Sobrou apenas um tanto de você.

E eu, que esperei pelas minhas lembranças, também não as tive. Só saudade.
Alguém deve ter achado seus pedaços na volta.
Aos poucos você fica inteiro, de novo, e voltamos a ser nós dois, no nosso Brasil.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Roupas limpas

Ela entrou no quarto que não era dela só para deixar mais uma braçada de roupas limpas. Era sempre a mesma desculpa usada para verificar se aquele mundo de peculiaridades estava de acordo com as suas expectativas.

Procurava sempre por coisas fora da normalidade. Uma prova de que as palavras vãs que dizia não eram tão vazias assim. Um bilhete, um comprovante de pagamentos, uma cartela de comprimidos: qualquer coisa poderia servir para ratificar suas palavras banhadas no seu amor torto.

Não sabia ao certo porque atacava tanto. Confiava em tudo o que lhe passara há tempos atrás e dizia que não confiava “é nos outros”. Sabia que seu discurso não era condizente com suas atitudes.
Enquanto remexia na gaveta com folhas, poemas, avisos e pedaços de um mundo que não era o dela, encontrou um desenho antigo. Os traços prematuros datavam de 14 anos atrás. Foi como se uma caixa tivesse sido aberta dentro dela: lembrou daquela que procurava pela sua mão antes de dormir e a repreendia pelos palavrões falados. Pensou que alguém tão doce como aquela que ela tinha não poderia ter se tornado nada que não estivesse nos trilhos daquele desenho.

“Mas ela anda tão estranha...”, pensou alto. Não acreditava, mas tinha medo. Estava certa da mudança, só não sabia ainda os motivos. O quarto sempre era mais importante do que as horas em família. O computador parecia uma ótima companhia e sempre havia algo mais interessante pra fazer do que gastar seus momentos na sala ou numa área comum da casa. “Na gaveta de baixo, quem sabe?”.

Abriu outra gaveta com medo, sem saber ao certo o que procurava e se queria encontrar alguma coisa. Quanto mais procurava, mais as lembranças se tornavam reais. Ouvia as risadas, as músicas no rádio da sala, sentia o mesmo perfume ocre que não saía de sua malha branca misturado ao da cozinha sendo limpa com a companhia dos velhos tempos. Sentiu o antigo frio na espinha ao lembrar de quando escurecia e tinha que proteger, além dela - e tudo o que isso envolve -, suas várias personalidades. Lembrou dos seus dias "não tão bons", quando a louça não havia sido bem lavada ou as falas eram altas demais e essa lembrança veio acompanhada de um barulho ardido, como se uma mão se chocasse a um pedaço de carne.

Lembrou dos gritos, gemidos, das súplicas e da ira com que tudo acontecia. Enfim extravasava. E sentia a culpa e a tristeza de um crime inafiançável que não prescrevia jamais.

Chorou.

Olhou para a cama desfeita onde havia largado tantas vezes a sua melhor companhia aos prantos. Parou.

Sentiu que já não tinha alguém para ficar na cama até mais tarde ou lhe preparar o café. Perdera o melhor que tinha ( e que ainda poderia ter!) e não era culpa de alguma outra pessoa – aquelas nas quais não confiava. Ninguém a havia tirado do seu lado.

Ela a havia destruído.

domingo, 13 de julho de 2008

A rosa e o tempo


Parecia um filme estranho. Daqueles de que não se sabe a origem.
No momento da crise, a música que tocava no seu computador causador de tudo sobressaiu de tal maneira que ela se perdeu no compasso e levitou por entre as notas. Levitou porque, dançar não era a sua vontade, naquele momento.
Elementos espalhados de forma displicente e inconsciente pelo seu quarto tornavam a cena ainda mais decadente. Visto por outro lado, poderia até ser poético: os resquícios de um sambinha triste no outro cômodo, a rosa carmim, deitada sobre a cômoda, iluminada pelo sol de inverno que ela, por vezes, tentara dividir em vão. A janela que mostrava a árvore cheia de flores lilás a cumprimentava de um jeito cordial e solitário.
E era assim que ela se sentia a cada vez que sua janela para o mundo era violada. Solitária. Sem aquela ligação superficial que a tornava sensível.
Pensou que nunca, num momento como aquele, a trilha sonora havia sido real. Lembrou da véspera, quando ganhou a rosa e um sorriso, e sentiu-se incrivelmente incapaz por não ter o domínio do tempo. Pensou que, agora, tinha a melodia que gostaria para a despedida de ontem.
Se controlasse o tempo, pará-lo-ia naquela lembrança. Seria fácil colocá-lo em meio às suas outras lembranças singelas e acima da realidade. Era fácil.
Na teoria.

Só percebeu que seus olhos continuaram abertos quando sentiu uma lágrima escorrer. Aquela dos últimos tempos. Uma lágrima seca, que ilustrava o momento e dava a ela a única noção do que acontecia: estava cansada.

As notas foram ficando cansadas de ajudá-la a flutuar. Secou as lágrimas do rosto e deixou as outras pra depois, enquanto escondia a rosa carmim do tempo.