sábado, 10 de maio de 2008
Quarta parte de uma trilogia
Percebe, entre uma lágrima e um sorriso de saudade, que ainda é capaz de sentir muito. E não sabe se deve se alegrar ou se punir por isso.
domingo, 27 de abril de 2008
História de um sábado frio
Colocar isso dentro de um frasco e atirar pra longe.. ou pra outro alguém.
A mesma música do ônibus e do metrô tocava agora no computador. Sentia-se inútil por pensar tanta coisa sozinha, por não ter com quem dividir esses pensamentos e sentimentos, já que ninguém a entendia. Do jeito que ela queria, não... Na verdade, nem ela entendia o que se passava com aquela cabeça, aquele coração e aqueles olhos, que procuravam por coisas que não estavam ali, mas deveriam.
Será que deveriam mesmo estar ali? , ela se perguntava. Será que, na verdade, ela não criara mais um espaço no meio do vazio que ela sentia? Talvez tivesse criado, talvez ele estivesse ali faz tempo... mas a sensação de vazio, ah, essa era permanente.
Mas porque ela fazia sempre a mesma coisa? Porque sempre procurava a sua completude nos outros? Talvez porque não acreditasse na sua capacidade de se sentir bem sozinha... mas que motivos ela tinha pra acreditar nisso? A resposta, ela não sabia. Só sabia que assim como não podia acreditar em si mesma, não deveria creditar essa responsabilidade aos outros. Nenhuma vez isso tinha dado certo, não seria agora que daria.
A música era cada vez mais triste, e por uma pequena fresta na janela, sentia um vento que lhe gelava por completo... pensava como podia estar ali tão sozinha, mesmo cercada de pessoas que a faziam sentir-se bem. Percebeu então que não adiantava um monte de elogios vazios, frases feitas, mensagens fúteis e coisas assim: era preciso mais! ELA queria mais.
E quando esse pensamento surgiu, percebeu que não adiantava enfeitá-lo: isso era só o que sabia, e pra ela, já estava de bom tamanho.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Poesia de Metrô
Os passageiros eram alguns estudantes, vestidos socialmente, discutindo sobre as provas; uma senhora com os olhos fixos em algum ponto no chão, certamente pensando em alguma coisa que a afligia, já que seu rosto apresentava uma expressão tensa; uma mulher recostada no fim do vagão, num sono cansado e incontrolável e ela, com os pés no banco da frente. Encolhida. Sentindo seus braços cruzados que seguravam o discman.
Olhava pra fora, e via os azulejos da estação absolutamente quadrados, milimetricamente distanciados e pensava que, ali no meio, algum deveria estar rachado... talvez todos estivessem um pouco machucados, mas as falhas eram tão pequenas e ela os observava de tão longe que isso era imperceptível aos seus olhos. Algum dia desceria naquela estação e os observaria com calma. De perto. Um por um. Tudo observado de perto apresenta alguma falha.
Suas mãos ficaram quentes. Ouvia agora uma música forte, mas triste. Sua cabeça no vidro, seu rosto cansado e sem maquiagem e seu corpo que não seguia o sentido do metrô a fizeram pensar que ali havia poesia. O simples fato de ser quem ela era, ali, no metrô, a fez pensar que havia poesia naquela cena.
E como toda poesia tem um fim, desceu na sua estação, sentou nos banquinhos e ali esperou, até o CD acabar.
sábado, 19 de abril de 2008
Cicatrizes
Resolvi então fazer uma incisão cirúrgica que me custou um dia em casa e alguns pontos na parte inferior de cada olho. Nunca senti dor ou qualquer outra coisa que me fizesse lembrar daquele dia. Mas agora, às vésperas do aniversário de um ano da cirurgia, esse tema (e outros também) tem me vindo à cabeça por causa desse frio de outono.
É impressionante como o vento gelado parece queimar minhas cicatrizes. Volto a senti-las como se ainda não estivessem cicatrizadas, e ao me perguntar se cuidei bem delas para que secassem.
Quando o vento bate em meus olhos, ao mesmo tempo em que os sinto secos, começo a ter a sensação de queimação. Mas não uma cauterização que fecha: simplesmente dói. Simplesmente queima.
Num segundo momento, aquela secura se torna tão grande e a queimação, tão incontrolável que meus olhos começam a se umedecer... cada vez mais, até que percebo uma lágrima rolando e sinto, sem nenhuma dúvida, minhas feridas abertas novamente (seria injusto chamá-las de cicatrizes).
Por isso, o medo do frio. Ele consegue transformar coisas sólidas em baldes de papel machê a serem moldados. Certezas marcadas em idéias nebulosas. Cicatrizes em feridas abertas. Expressões felizes em rostos molhados, seja pela chuva ou por lágrimas sem nexo.
E ainda estamos no outono...
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Tarde..
sábado, 22 de março de 2008
Trocando em graúdos
Chega uma hora em que os neurônios não emitem mais aqueles reflexos rápidos e você começa a repensar as mesmas idéias sempre.
Talvez elas já estejam obsoletas e não se encaixem mais no contexto, mas a gente continua mascando o velho chiclete das idéias marcadas, até ele virar aquela borracha imprestável.
Achamos que é difícil mudar de idéia. Às vezes é, mesmo. Gasta tempo e você tem de se desfazer daquelas velhas premissas arraigadas à sua história.
Tão cômodas..
Tão práticas...
Numa hora de desespero, sem opinião formada, você abre a gaveta dos pensamentos sólidos e escolhe aquele que mais se adequa à situação.
A questão é: será que esse pensamento ainda é compatível com a realidade? Não a da época em que ele foi formado, mas a do momento em que ele foi selecionado.
Vale a pena repensar certas coisas.
E trocar o sabor de nada por um novo recheio de morango.
domingo, 9 de março de 2008
Escovas
Eram dois estranhos.
Desconhecidos de uma vida inteira, que, mais estranhamente ainda, dividiam o espaço das coisas mais íntimas. Pra ela, isso podia ser resumido em um só objeto: a escova de dentes.
Aquele pequeno pedaço de plástico com cerdas continha partes biológicas dela. Era íntimo demais. O potinho de acrílico azul ficava no banheiro que também era dividido por eles. Imóvel. Estático.
Impossível acreditar que aquele local em que nem seu pai entrava ao mesmo tempo que ela, agora era dividido sem pudores aparentes com aquela pessoa. Prazeres particulares, como o café com leite gelado ou sentar na janela e observar os passantes e suas vidas, agora tinham companhia. Não tentava medir a intensidade daquela presença do seu lado. Não fazia julgamentos com direito a céu e inferno: apenas sentia - coisa que, para ela, era a mais difícil de fazer dissociada de outras.
No meio de todos os sentimentos, veio um pensamento que a deixou atordoada: como uma pessoa que não viu seu primeiro tombo e não sabe que ela não gosta do chocolate, e sim das embalagens dos bombons, pode estar na mesma casa que ela e dividir seu porta escovas de acrílico?
Eles passaram mais tempo de suas vidas no anonimato sem graça de quem não tem um par e, agora que estavam juntos, não havia uma cicatriz da infância que tivesse a história dividida. Não tinha um pontinho dos anos de sustentação que tivesse vindo à tona. Apenas vivam juntos, retratando os gostos e desgostos a partir de quando se conheceram.
Mas a escova de dentes continuava ali. Molhada e encostada, como numa espécie de abraço à outra.
O temos pela intimidade que talvez fosse precoce, tomou conta dela. Estava acostumada ao macarrão à bolognesa dominical, mas o único almoço que faziam juntos, era feito em 3 minutos e no sabor legumes. Gostava de dormir com a cabeça coberta, de meias e esparramada, como se ainda vivesse sozinha. O edredom milimetricamente colocado sobre a cama a deixava enervada, e o amargor das manhãs sem companhia também. Lembrou de quando sabia que estava sozinha, e não apenas se sentia.
Pensou que talvez os lugares divididos na mesa e no sofá estivessem ficando com a pessoa errada. “Quem vai saber?”
Caminhou para o banheiro. Olhou o acrílico azul. Estavam lá, as duas. A sua quase seca. Aproveitou o momento, colocou na sua nécessaire e saiu.
Sentiu-se mais íntima de si mesma.